O sindicato terá a força que sua categoria decidir construir

Ao observar a impaciência de alguns grupos de trabalhadores com o sindicato, tenho refletido sobre como chegamos a este ponto. Antes de tudo, é preciso registrar meu respeito a todos os trabalhadores e lideranças sindicais que, ao longo do tempo, nos trouxeram até aqui. As conquistas da classe trabalhadora não foram lineares: sempre aconteceram em movimentos de expansão e retração, como o próprio coração que pulsa. Ora avançamos, ora somos obrigados a recuar.
O momento atual é, sem dúvida, de extrema dificuldade para a nossa categoria e também para o conjunto da classe trabalhadora. Desde a reforma trabalhista, ou até antes dela, temos atuado em posição defensiva, tentando preservar direitos. Ainda assim, acumulamos perdas, como as que atingem os novos empregados. É doloroso reconhecer, mas essa não é uma exclusividade nossa: trata-se de um reflexo direto da conjuntura adversa.
Há, porém, um fenômeno que chama atenção: muitas vezes quem mais reclama é justamente quem menos participa. São aqueles que não comparecem às assembleias, não se sindicalizam, assinam cartas de oposição, não aderem a paralisações, não acompanham os debates e, por vezes, desmobilizam colegas. Essa postura, na prática, fragiliza a luta coletiva e fortalece a direção truculenta e autoritária contra a qual tanto se queixam. É como a árvore que defende o desmatamento ou o trabalhador que aplaude a privatização da própria empresa pública: um tiro no próprio pé. Muitos ainda não compreenderam que a ação sindical vai muito além do percentual de reajuste na data-base e que a luta não se trava em grupos de WhatsApp, Telegram ou Discord, mas sim na mobilização real e organizada.
É por isso que faço um convite: aos que estão insatisfeitos, não basta criticar. É preciso agir. Coloquem seus nomes à disposição para o trabalho voluntário nas suas organizações sindicais, participem das chapas do sindicato, ajudem a fortalecer a organização dos trabalhadores. O caminho não é lutar contra a entidade, mas compor e colaborar com ela. Aqui em Brasília temos uma máxima: “o sindicato terá a força e o tamanho que sua categoria quiser”. Enquanto a relação com o movimento sindical for de clientelismo, e não de pertencimento, não teremos nem a força nem a estatura necessárias para enfrentar os ataques agressivos e desrespeitosos que o lado patronal vem impondo à nossa luta.
Enquanto parte da categoria se perde em discussões pontuais — como a validade do APPD do acordo passado ou a data de assinatura do ACT —, estamos diante de ameaças muito mais graves. A privatização da Celepar, por exemplo, coloca em risco a existência de todas as empresas públicas de tecnologia e a própria soberania digital do Brasil, e mesmo assim uma audiência pública em Brasília contou com quase nenhuma participação dos trabalhadores. Soma-se a isso o avanço da reforma administrativa e o direcionamento tecnológico que aprofunda a dependência do país em relação ao Norte Global. Sem falar nos ataques cotidianos à nossa base: negativas de assistência, tentativas de cortes de direitos, assédio e práticas antissindicais, entre outros.
A verdade é simples: quando cada trabalhador compreender que o sindicato não é “os outros”, mas ele próprio, a história pode começar a mudar. Reforço, portanto, uma convicção que deve nos guiar: o sindicato terá a força e o tamanho que a sua categoria decidir construir.

Márcia Honda
Secretária de Tecnologia da Fenadados