De prisões a plataformas: do panóptico de Bentham ao algoritmo que vigia a mente e adoece o corpo

Em 1785, o filósofo inglês Jeremy Bentham idealizou o panóptico, um modelo de prisão em que as celas eram dispostas em anel ao redor de uma torre central de vigilância. O segredo desta proposta arquitetônica não era a visão constante, mas a possibilidade dela. Como o detento nunca sabia se estava sendo observado, ele passava a policiar o seu próprio comportamento.
Séculos depois, o filósofo francês Michel Foucault expandiu essa análise, mostrando que o modelo panóptico transbordou os muros das prisões para se tornar naturalizado em instituições modernas, como escolas, hospitais, fábricas e empresas em geral. A lógica é exatamente a mesma: organizar os corpos no espaço, de modo a incorporar a disciplina como elemento intrínseco da cultura organizacional, normalizando a presença de uma instância onipresente, onisciente e permanentemente vigilante.

A EVOLUÇÃO QUE NÃO ACONTECEU: A CONVIVÊNCIA COM O PANÓPTICO DIGITAL
Engana-se quem pensa que a sociedade moderna superou os ambientes de hiper vigilância, ela os aprofundou. O que vivemos hoje é uma sofisticação tecnológica de práticas arcaicas. Se nas fábricas do século XIX o controle era visual e físico, hoje, em todas as esferas da vida — e especialmente no trabalho —, ele é digital e invisível.
No segundo semestre de 2025, o Brasil testemunhou um debate que mobilizou sindicatos e outros setores da sociedade acerca das questões éticas e legais do desligamento sumário de cerca de mil trabalhadores do Itaú. O motivo alegado foi uma suposta “baixa produtividade”, detectada por sistemas de monitoramento digital. Este episódio emblemático demonstra como o algoritmo foi convertido no panóptico moderno. Ele atua como um “Big Brother” implacável e invisível, que quantifica “o quê” entregamos e molda o “como” vivemos, operando sem qualquer transparência.
E esta ilustre tecnologia não se infiltra em nossa rotina de um modo único; ela se faz presente de maneira difusa, discreta e quase incontestável, habitando nossos celulares, relógios, assistentes virtuais, computadores, automóveis, casas inteligentes e outros aplicativos em geral. A sociedade é exposta a softwares que rastreiam cada milissegundo da vida, e essa realidade já contamina toda a classe trabalhadora: do motorista de aplicativo ao professor, do operário ao bancário.

O ALGORITMO COMO FERRAMENTA DE ASSÉDIO
Essa super vigilância promove uma autorregulação tóxica. O trabalhador, temendo uma métrica punitiva do algoritmo, abdica de pausas, ignora dores físicas e silencia o cansaço mental. É aqui que a tecnologia deixa de ser ferramenta emancipatória de promoção de melhorias na qualidade de vida das pessoas e pode ser instrumento de assédio institucionalizado.
A pressão por “estar sempre logado” e atingir desempenho projetado destrói a dignidade humana. O ambiente torna-se emocionalmente inseguro, pois a confiança entre trabalhador e empresa é substituída pela frieza de dados estatísticos. O resultado é uma epidemia silenciosa de burnout, depressão e ansiedade que não é um “bug” do sistema, mas uma característica da forma como ele foi projetado.

A SAÚDE MENTAL E A NORMA: O QUE DIZ A NR-01
A partir de 2026, não se trata mais de uma questão ética, mas de uma obrigação legal. A Norma Regulamentadora nº 01 (NR-01), do Ministério do Trabalho e Emprego, é explícita ao disciplinar o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). Cabe ao empregador identificar, avaliar e controlar os riscos existentes no ambiente de trabalho, bem como informar às trabalhadoras e aos trabalhadores sobre os riscos a que estão expostos e as medidas adotadas para sua prevenção ou mitigação. Esse dever abrange, de maneira obrigatória, os riscos psicossociais, que não podem mais ser ignorados, relativizados ou tratados como questões secundárias.
Um ambiente de trabalho sob super vigilância algorítmica que não permite desconexão ou que promove perseguição por métricas inalcançáveis é um ambiente em violação direta com as normas de saúde e segurança. A promoção de um ambiente emocionalmente seguro é um direito garantido, e a vigilância extrema é o oposto do que a legislação prevê como trabalho digno.

TECNOLOGIA PARA A PROMOÇÃO DO BEM VIVER
A tecnologia precisa estar orientada pela promoção da qualidade de vida e pela centralidade do ser humano. Na Fenadados, em unidade com a classe trabalhadora, defendemos que:

  • O ser humano não é uma variável: métricas, indicadores e sistemas não podem substituir o diálogo, a escuta qualificada e a compreensão integral da saúde da trabalhadora e do trabalhador.
  • As pessoas têm direito à intimidade e à dignidade: o monitoramento permanente e invasivo deve ser enfrentado e combatido como prática abusiva e violadora de direitos.
  • A soberania e os direitos sociais são indisponíveis: a tecnologia deve estar a serviço do bem viver, da liberdade, da redução da carga de trabalho e do aumento da segurança, jamais da precarização das relações laborais, do desemprego, do assédio ou da humilhação de pessoas.

Seguiremos firmes em 2026, pois a luta contra esse sistema perverso é, sobretudo, a luta pela reconquista da nossa humanidade em tempos digitais. Tecnologia com direitos sociais não é uma opção — é imprescindível.

(Márcia Honda – Secretária de Tecnologia da Fenadados)