Evento realizado na sede do Sinpro-RJ discutiu a crise do multilateralismo e os desafios impostos pelas pautas climática e digital
Rio de Janeiro — A Rede Brasileira pela Integração dos Povos (REBRIP) promoveu o encontro “Diálogos de atualização sobre as transformações no Sistema de Comércio Internacional”, na sede do Sinpro-RJ, no dia 25/9. O evento debateu a crise do multilateralismo, o avanço do protecionismo e os impactos das agendas climática e digital no cenário econômico global. A Fenadados marcou presença na formação com Stela Almeida, Secretária de Empresas Estaduais e Municipais, e Márcia Honda, Secretária de Tecnologia da federação.
Abertura e o cenário geopolítico
A coordenadora-geral da REBRIP, Graciela Rodriguez, abriu os trabalhos ressaltando a atuação da rede em aproximar a sociedade civil de debates econômicos complexos. Graciela alertou que as propostas de reforma na Organização Mundial do Comércio (OMC) ameaçam conquistas e direitos históricos dos países do Sul Global. As discussões do período da manhã, conduzidas por Adhemar Mineiro, repassaram a trajetória do comércio internacional desde o pós-Guerra e a criação do GATT/OMC até os travamentos da Agenda de Doha, a ascensão chinesa e as recentes tensões comerciais promovidas por Estados Unidos e União Europeia.
Transformação Digital, Trabalho e Soberania Nacional
No bloco da tarde dedicado às pautas digitais no comércio global, Mateus Mendes, coordenador do GT Digital da Rebrip, apresentou a incorporação da digitalização à agenda comercial e apresentou uma análise de como as pautas de tecnologia e economia digital deixaram de ser periféricas e passaram a ocupar o centro das negociações de acordos e tratados de livre comércio. Em sua apresentação, Mendes analisou a transformação da economia global a partir da Terceira Revolução Industrial e da dataficação, destacando que o fluxo de dados e a infraestrutura tecnológica tornaram-se o núcleo da produção e acumulação de capital. Mendes examinou os impasses do multilateralismo e os três grandes modelos regulatórios globais — o corporativista norte-americano, o regulatório europeu e o de soberania cibernética chinês —, alertando para o avanço das Big Techs e as pressões geopolíticas sobre a autonomia dos países em desenvolvimento. Por fim, abordou a inserção do Brasil e do Mercosul em acordos digitais, ressaltando o risco de cláusulas que proíbem o armazenamento local de dados ou limitam a margem de regulação estatal, comprometendo a soberania digital e o desenvolvimento soberano do país.
O professor Lucas Tasquetto (UFABC) aprofundou a análise sobre a pauta do comércio digital, detalhando temas sensíveis como impostos sobre serviços digitais (DST); projeto de erosão da base tributária e desvios do lucro (BEPS – Base Erosion and Profit Shifting) e moratória de direitos aduaneiros sobre transmissões eletrônicas. A discussão evidenciou a urgência de uma regulamentação que assegure a soberania sobre o fluxo de dados e proteja o mundo do trabalho frente às novas formas de exploração tecnológica.
Fenadados presente no debate promovido pela rede
Representando a Fenadados, a Secretária de Tecnologia Márcia Honda expressou gratidão pelo espaço de formação técnica e política, enfatizando a importância de conectar as discussões sobre comércio internacional à pauta dos trabalhadores da TI. “Quando a gente pensa no movimento sindical, pode parecer que essas pautas estão desconectadas, mas não: elas têm tudo a ver com o trabalhador e com o que será o futuro da vida laboral. É uma aquarela de organizações trocando experiências, e esse momento de formação reforça a relevância de estarmos preparados para esses desafios” — destacou Márcia Honda.
A Secretária de Empresas Estaduais e Municipais da Fenadados, Stela Almeida, destacou o impacto das mudanças tecnológicas e das reestruturações de mercado no setor público e no dia a dia da categoria de TI. Stela ressaltou a importância de levar o conhecimento acumulado nesses fóruns de formação diretamente para as bases sindicais, capacitando os trabalhadores e renovando a linguagem de luta política da categoria.
Resistência, Memória e os Caminhos Futuros
No encerramento das atividades, Graciela Rodriguez fez uma intervenção emocionante para resgatar a trajetória de lutas da REBRIP e dos movimentos sociais latino-americanos. Ao rebater visões de que as vitórias passadas teriam sido “fáceis”, Graciela rememorou os intensos embates enfrentados contra a ALCA e contra as investidas neoliberais na OMC.
“Não foram batalhas em vão. Nós barramos a ALCA e ajudamos a parar acordos que transformariam nossa região em uma colônia sem soberania. Cada ciclo de luta exige novos métodos, pois o capital atua de forma cada vez mais perversa. Não podemos desistir. A defesa da vida, do clima e dos direitos exige poesia, arte, novas linguagens e a energia da juventude para continuar construindo alternativas de justiça social e ambiental” — concluiu Graciela Rodriguez.
O seminário encerrou-se com o compromisso coletivo de fortalecer a articulação da REBRIP e das entidades parceiras para garantir a incidência das trabalhadoras e trabalhadores nas negociações internacionais sobre tecnologia, clima e comércio.
Sobre a Rebrip
A REBRIP (Rede Brasileira pela Integração dos Povos) é um espaço de articulação multissetorial, com participação de organizações da sociedade civil organizada. A rede atua na formação política e crítica de quadros, na integração regional de organizações e no acompanhamento e incidência nos assuntos de âmbito internacional. A rede tem por objetivo fortalecer a capacidade de participação social na construção de um sistema internacional pautado pela soberania dos povos, pelo desenvolvimento sustentável, pela redução das desigualdades e pela justiça social e ambiental.