SINDPD-PR alerta para os riscos do mega data center de IA em Maringá-PR e cobra transparência e contrapartidas sociais

A iniciativa, encabeçada pela empresa RT-One, traz à tona contradições e gargalos estruturais que não podem ser ignorados em nome de um discurso genérico de “modernização”.

O anúncio da construção de um mega data center voltado à Inteligência Artificial em Maringá (PR), com investimento projetado em R$ 6 bilhões e consumo de até 400 MW de energia, acendeu um sinal de alerta no movimento sindical. O SINDPD-PR vem a público cobrar transparência, garantias de empregos de qualidade e reais contrapartidas sociais e ambientais para a população paranaense.

O paradoxo do ente estatal: privatizar no estado e criar no município?
A tentativa de criar uma estatal municipal em Maringá revela um contrassenso que desmorona o próprio discurso privatista. O argumento utilizado pela prefeitura para justificar a criação da Maringá Data e Tecnologia S.A. (PL 18.401/2026) — a necessidade de ter o Estado garantindo a gestão, a infraestrutura e a governança do novo data center — desmente diretamente a tese do governo estadual ao vender a Celepar e a Copel sob a alegação de que a iniciativa privada faz tudo melhor.
Essa contradição expõe a gravidade do desmantelamento das estatais estaduais: ao privatizar a Celepar, o Governo do Estado retira a inteligência técnica centralizada e o braço público de apoio aos municípios. As cidades maiores, com mais orçamento, ainda tentam criar suas próprias estruturas para cobrir esse vácuo. Porém, o verdadeiro prejuízo cai sobre os municípios de pequeno porte — que correspondem a cerca de 76,2% das 399 cidades paranaenses (com até 20 mil habitantes, segundo o IBGE).
Sem a Celepar pública para prestar serviços e integrar soluções tecnológicas, a imensa maioria das prefeituras fica sem suporte técnico, refém de contratos privados caros e isolada diante de megaprojetos que afetam toda a região. Criar uma ilha municipal em Maringá não resolve a perda da capacidade estatal do Paraná; pelo contrário, explicita o abandono das cidades menores e a fragmentação da soberania digital no estado.

A ilusão do “atalho da praticidade” e a perda de escala
A tentativa de pulverizar iniciativas de grande porte município por município gera a ilusão de dinamismo, mas prejudica a escala necessária para projetos de alta complexidade e tecnologia. O desenvolvimento de infraestrutura de processamento de dados para Inteligência Artificial exige integração com a malha elétrica de alta tensão, gestão sustentável de bacias hidrográficas e conexão direta com centros de pesquisa e universidades.
Buscar atalhos locais e terceirizar a gestão do ecossistema computacional para grandes operadores globais coloca o país em uma posição passiva: a de mero fornecedor de água, energia e benefícios fiscais, sem que haja transferência efetiva de tecnologia ou retenção da propriedade intelectual gerada.

Ausência de agenda estratégica estadual e o impacto regional
A falta de uma coordenação central por parte do governo do Estado deixa os municípios menores desassistidos e expostos a impactos indiretos. Os efeitos ambientais e energéticos de um complexo dessa magnitude não respeitam limites territoriais. O consumo maciço de energia elétrica e de recursos hídricos para o resfriamento dos servidores impacta toda a infraestrutura do entorno, podendo sobrecarregar redes regionais sem que as cidades vizinhas recebam compensações ou retornos tributários diretos.

Exigência de compromisso ético e soberania tecnológica
Diante desse cenário, a Fenadados, o SINDPD-PR e a categoria cobram seriedade e responsabilidade da classe política paranaense. O desenvolvimento do estado e o futuro da infraestrutura digital não podem ser tratados com oportunismo eleitoral, retórica ufanista ou concessões cegas ao mercado privado.
A instalação de um complexo da magnitude do megadata center de Maringá atinge o coração dos princípios defendidos pelo “Decálogo para a Soberania Digital”(https://decalogo.soberania.digital/(Enderelo externo)). O documento estabelece diretrizes fundamentais para impedir que o país atue como mero exportador de recursos primários (por exemplo, água e energia) e importador passivo de tecnologia estrangeira.
A construção dessas infraestruturas precisa estar estritamente vinculada a compromissos éticos e estruturais:

  • Hospedagem e governança local de dados: Garantir o controle público e social sobre os dados estratégicos gerados e processados no país, protegendo a privacidade dos cidadãos e a segurança nacional.
  • Sustentabilidade e justiça ambiental: Impedir a sobrecarga dos ecossistemas locais e garantir que a altíssima demanda hídrica e energética não sacrifique o abastecimento e as tarifas da população.
  • Fomento ao conhecimento e ao software livre: Exigir que megaempreendimentos tragam transferência real de tecnologia, gerem P&D no Paraná e fortaleçam uma infraestrutura digital pública, federada e baseada no bem comum.
    Para demonstrar um compromisso real com uma agenda tecnológica justa, sustentável e pautada no interesse público, o SINDPD-PR e a Fenadados exigem que gestores públicos e parlamentares assinem e adotem o Decálogo como balizador oficial de suas políticas de incentivo e regulação tecnológica no estado e assumam um compromisso público e inequívoco com uma agenda tecnológica justa, sustentável e pautada pelo interesse público.

Exigências do movimento sindical
O SINDPD-PR e a Fenadados reafirmam que não são contra o avanço tecnológico ou a atração de investimentos. No entanto, defendem que a transformação digital precisa ser acompanhada de responsabilidade social e visão estratégica de longo prazo:

  • Empregos reais e qualificados para os paranaenses: É preciso esclarecer quantos postos de trabalho permanentes e especializados serão efetivamente criados para a comunidade local após a fase de obras.
  • Impactos e incentivos: A sociedade e os trabalhadores devem conhecer os incentivos fiscais concedidos, os custos públicos envolvidos e os estudos de impacto ambiental sobre água e energia.
  • Soberania e desenvolvimento: O estado do Paraná deve atuar de forma estratégica para garantir que a infraestrutura servindo à Inteligência Artificial reverta em conhecimento, formação profissional e autonomia tecnológica para o estado do Paraná e para o Brasil.
  • Defesa das Infraestruturas Críticas: A criação e manutenção de estatais municipais precisam estar ancoradas em uma rede pública integrada, fortalecendo a soberania de dados do estado — o que exige manter a Celepar pública e forte, atuando em sintonia com os municípios e protegendo os ativos estratégicos do Paraná.

A Fenadados apoia a mobilização do SINDPD-PR e reforça que o desenvolvimento tecnológico do país precisa caminhar lado a lado com a preservação dos bens públicos, a soberania nacional e a valorização da classe trabalhadora.

Veja mais detalhes em: https://sindpdpr.org.br/noticias/megadata-center-de-ia-em-maringa-pr-exige-transparencia-e-contrapartidas-sociais/

Acesse o Decálogo para a Soberania Digital em https://decalogo.soberania.digital/

fonte: https://plantaformas.org/assemblies/fenadados/f/624/posts/525